Postagens

Papa Palmerino e a inspiração religiosa

Imagem
Palmerino Sorgente Uma das peças bordadas em nosso projeto - um vestido - tem como tema a religiosidade, o que faz pensar em um artista praticamente desconhecido do grande público: Palmerino  Sorgente, um artesão cujo requinte equipara-se aos mais dedicados investigadores da linguagem. Nascido na Itália em 1920, o artista mudou-se para o Canadá em 1954, depois de servir na Segunda Guerra Mundial. Casado e pai de treze filhos, Palmerino ganhava a vida como dono de pizzaria até que, em 1970, um acidente de trabalho forçou-o a uma aposentadoria prematura. Para dar vazão à hiperatividade e tirar proveito de suas habilidades técnicas, converteu uma área de sua casa num bairro proletário em Montreal em oficina de reparos eletrônicos. Tudo caminhava normalmente até o dia em que começou a ouvir vozes. Em uma das ocorrências, Nossa Senhora ordenou-lhe que tomasse para si o anúncio da fé e, a partir desse dia, dedicou-se exclusivamente a tal propósito, vindo a ganhar a alcunha de Papa Palmer...

PARTILHA DE PROCESSO 2

Imagem
É sempre uma alegria partilhar os passos de um processo criativo, não só pelo trabalho em si, mas porque ele é fruto de muitas pesquisas, dúvidas, discussões, idas e vindas. Esse percurso, no caso do nosso projeto, é parte importante da ressignificação das vestimentas, pois vem carregado de paralelos com a transição de gênero e o acolhimento familiar. Hoje partilharemos a provocação artística feita pela bordadora e tingidora Renata Matteoni, especialista em Artes-Manuais para a Educação. A peça escolhida foi um vestido branco com barra, decote e faixa  de cintura floridos. / No diálogo intenso com Renata brotou o nome da artista francesa Louise Bourgeois - uma das referências na pesquisa artística da provocadora.  Da obra deLouise Bourgeois inspiraram-nos, entre outros elementos, os textos bordados e as espirais, como pode ser visto abaixo. A experiência de Renata Matteoni com tingimento natural resultou na intervenção primeira do vestido: a reprodução das cores da bandeira tr...

Trechos do livro "A ALMA PRECISA DE TEMPO", de Verena Kast

Imagem
Trechos do livro "A alma precisa de tempo", de Verena Kast. trad. de Markus A. Hediger. Petrópolis: Vozes, 2016. “Na nossa sociedade contemporânea precisamos ligar não só com a divisão de tempo. Fazemos muitas coisas também ao mesmo tempo: Ocorre uma aceleração por meio do adensamento do tempo.” (p 10) “Os momentos em que não estamos ativos nos regeneram, são  momentos de reflexão; precisamos procurar ativamente momentos de ócio e quando os encontramos, logo os submetemos ao ditado do tempo: Queremos nos recuperar ou descansar rapidamente.” (p. 11) “Portanto, trata-se de garantir aquilo que, desde sempre, tem sido um problema: fazer de tudo para que, além da divisão e sobreposição do tempo, respeitemos também o tempo rítmico, a nossa necessidade de ritmos na nossa vida. E isso significa em primeiro lugar tomar tempo para determinados aspectos da nossa vida.” (p. 11) “Processos precisam de tempo.” (p. 12) “O fato de que a alma precisa de tempo se evidencia também quando algo ...

"VIAGEM SOLITÁRIA", de João W. Nery

Imagem
  “Viagem solitária: a trajetória pioneira de um transexual em busca de reconhecimento e liberdade”, de João W. Nery. Rio de Janeiro:  Leya, 2019. Autobiografia com tonalidades de romance, “Viagem solitária” apresenta a jornada do autor desde a infância nos anos 1950 até a idade madura. Se hoje a transição de gênero é uma árdua jornada, é possível imaginar o quão sozinho João Nery esteve ao se reconhecer homem em meados do século passado.  Acompanhamos seu despertar afetivo na adolescência, quando ainda era designado como mulher, e como se deu a identificação com o gênero masculino e os processos para a redesignação sexual - suas dificuldades e percalços. Percorremos com ele os estudos universitários, o trabalho e a vida civil como homem - seu casamento e a adoção de um filho. Tudo permeado por reflexões e relatos de sua militância LGBTQIAP+. O livro foi lançado em 2011 sob as expensas do próprio Nery e republicado, em nova edição, um ano depois de sua morte. Capítulos fo...

LOUISE BOURGEOIS - Referências estéticas

Imagem
Louise Bourgeois (foto: internet) Seguimos a falar sobre cada uma das parcerias criativas e as referências que tomamos. A segunda parceira com projeto já definido é RENATA MATTEONI e sua proposta foi baseada em uma série de trabalhos da artista plástica francesa  LOUISE BOURGEOIS (1911-2010). A própria biografia de Louise é uma inspiração para o nosso projeto, a começar pela relação com o pai: ele queria um menino. A decepção pelo nascimento de uma filha era constantemente mencionada em comentários e brincadeiras maldosas, algumas delas relembradas por Louise até o final da vida. A relação conflituosa com o pai  nunca foi superada, tanto que a artista ressignificou diversos dos traumas em sua obra.  A mãe, artista talentosa, ensinava a menina as artes do fio. Encarregava-a de tecer ou restaurar os pés e as pernas das figuras, dada a sua estatura de criança. A relação entre as duas era carregada de afeto, mas foi interrompida pela morte quando Louise era ainda uma menina. ...

PARTILHA DE PROCESSO 1

Imagem
  Trazemos hoje uma pequena amostra da primeira provocação artística, feita por Karina Nakahara Propomos a ressignificação de vestuário como dispositivo de processos internos de reconhecimento e apropriação de vivências maternas de transição de gênero. Narrativas inspiradas por artistas e recriadas por mulheres que se dedicam às Artes-Manuais como produção de si e de mundos. Bordar o transicionamento de gênero em nosso projeto é traduzir, em uma prática ancestral tida como feminina, o processo vivido pelas diversas mães-trans entrevistadas e pesquisadas. Que possamos trazer visibilidade e sensibilidade á causa. Adélia Nicolete

NISE DA SILVEIRA, uma psiquiatra rebelde

Imagem
  “Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde”, de Ferreira Gullar. Editora Relume Dumará, 1996. Coleção Perfis do Rio. Falar da alagoana Nise da Silveira (1905-1999) é falar, sim, de rebeldia. Sua decisão pelo curso de Medicina, ainda que fosse a única mulher da turma, foi apenas o primeiro sinal do que estaria disposta a enfrentar.  Outro sinal evidente foi a negação em aplicar choques elétricos em doentes mentais em crise quando a prática incluía, além desse procedimento, choques insulínicos e lobotomia. Nise foi presa injustamente durante a ditadura Vargas, enfrentou o sistema psiquiátrico carioca, buscou e obteve orientação com o suíço Carl Gustav Jung. Enfim, implantou e garantiu a permanência (na maioria do tempo precária) da expressão artística como forma de terapia; criou no Rio de Janeiro o Museu de Imagens do Inconsciente, que até hoje fomenta e preserva a produção de obras de arte nas mais diversas linguagens; idealizou a Casa das Palmeiras, espaço intermediário entr...