Trechos do livro "A ALMA PRECISA DE TEMPO", de Verena Kast
Trechos do livro "A alma precisa de tempo", de Verena Kast. trad. de Markus A. Hediger. Petrópolis: Vozes, 2016.
“Na nossa sociedade contemporânea precisamos ligar não só com a divisão de tempo. Fazemos muitas coisas também ao mesmo tempo: Ocorre uma aceleração por meio do adensamento do tempo.” (p 10)
“Os momentos em que não estamos ativos nos regeneram, são momentos de reflexão; precisamos procurar ativamente momentos de ócio e quando os encontramos, logo os submetemos ao ditado do tempo: Queremos nos recuperar ou descansar rapidamente.” (p. 11)
“Portanto, trata-se de garantir aquilo que, desde sempre, tem sido um problema: fazer de tudo para que, além da divisão e sobreposição do tempo, respeitemos também o tempo rítmico, a nossa necessidade de ritmos na nossa vida. E isso significa em primeiro lugar tomar tempo para determinados aspectos da nossa vida.” (p. 11)
“Processos precisam de tempo.” (p. 12)
“O fato de que a alma precisa de tempo se evidencia também quando algo nos abala e interrompe o curso da nossa vida. Perdemos nossa paz interior, não nos sentimos à vontade conosco mesmos, perdemos o nosso centro - queremos recuperar o nosso senso de nós mesmos, o nosso centro: Isso precisa de tempo.” (p. 12)
“Quando algo destrói o equilíbrio da nossa alma, precisamos de tempo para recuperar esse equilíbrio. Sabemos que o tempo não cura todas as feridas, mas precisamos de tempo para que o processo de cura possa seguir seu curso.” (p. 12)
“Nós nos sentimos em casa em nossas lembranças - lembranças são a pátria psicológica.” (p. 14)
“Abalos existenciais nos mostram que possuímos um mundo interior ao qual não podemos simplesmente impor nossas leis e a nossa vontade.” (p. 15)
“O que falta cada vez mais é o ócio. Falta também a contemplação das coisas, a tentativa de transformar eventos em experiências e assim torná-los acessíveis como experiências interiores, que possam ser revividas, lembradas como marcos do desenvolvimento da identidade autobiográfica até a idade avançada. O que me importa é o coração quente, a consciência de que é importante criar um fundo de vida interior, emocional e criativa, que possa servir como nosso lar. Isso enriquecerá também os relacionamentos humanos.” (p. 19)
“Quando nos apercebemos do mundo com todos os sentidos, estamos bem ali onde a vida ocorre neste instante, em determinado espaço, em determinado tempo.” (p. 20)
“O quanto desprezando os nossos sentidos também sob a tirania do tempo ,se evidencia quando passamos a transmitir experiências emocionais importantes como mera informação e não mais como narrativas. Desapropriar os sentidos significa também ignorar os sentidos e deixar de exercitá-los. “ (p. 21)
“A empatia comigo mesmo exerce um papel importante quando olho para a minha própria vida: uma empatia posterior que estabelece um contato emocional com o nosso passado, com aquele que realmente aconteceu. De repente, entendemos como conseguimos superar determinadas situações, determinados desafios. Ou reconhecemos que, durante muitos anos, enfrentamos corajosamente determinados medos, que tivemos a coragem de não fugir do medo. Posteriormente, reconhecemos nosso mérito, lamentamos as dificuldades, mas somos gratos por termos lidado com aquilo daquela forma. Ou nós nos lembramos de desejos que incentivaram determinados desenvolvimentos. Às vezes conseguimos apreciar isso apenas em retrospectiva.” (p. 33)
“São interessantes nesse contexto as abordagens narrativas que encontramos na psicologia desde a década de 1980. Contar histórias, escrever histórias para tornar visível a própria identidade de forma que a vida faça sentido, não só em retrospectiva, mas também em vista de histórias que dizem respeito ao futuro.” (p. 54)
“A imaginação é criativa quando ela deixa de ser uma mera ‘representação’ fiel de algo dado e acrescenta aspectos novos. Em sonhos, por exemplo, a imaginação é criativa. O elemento criativo também se baseia em experiências, mas estas são orquestradas de maneira nova.” (p. 58)
“Pois uma convicção fundamental das terapias psicodinâmicas afirma que algo pode ser compreendido quando conseguimos designá-lo, e ainda mais quando conseguimos expressá-lo na escrita. Assim, conseguimos bani-lo. Podemos refletir sobre uma emoção banida de forma muito mais eficiente do que sobre uma emoção que ainda não pode ser verbalizada, que ainda é experimentada no corpo. Mas a designação não pode eliminar a emoção. E escrever sobre as emoções também faz sentido: Tudo passa, mas as palavras no papel dão testemunho do fato de que aquilo realmente aconteceu, que já pertence ao passado, mas que ainda está presente, pois está escrito naquela folha de papel, aquilo foi designado e agora podemos refletir sobre isso. Na psicologia profunda, o inconsciente não é apenas verbalizado, mas também representado em imagens. Especialmente quando acreditamos na importância das emoções, a questão não se limita a encontrar palavras para as emoções e assim talvez transformá-las em frases vazias, mas é também importante conectar as emoções com imaginações. Para Jung era importante acrescentar ao pensamento linguístico o pensamento da fantasia, que se expressa em imaginações na poesia, na arte, nas religiões. Não se trata de códigos, mas de símbolos vivos : trata-se aqui de uma comunicação viva e animada.” (p. 88)
“Quando ocorrem mudanças precisamos nos adaptar e esperar o inesperado, ou seja, abrir mão de certo poder de controle. Aprendemos a conviver com a incerteza e a nos preparar criativamente para o novo. No entanto, precisamos poder confiar na nossa capacidade de lidar criativamente com situações difíceis. E mais: Mais ainda do que agora, será cada vez mais importante unir-se a outras pessoas para vencer os desafios em conjunto. Criar uma rede relacional confiável, e mesmo que seja apenas para solucionar um problema urgente, se tornará cada vez mais importante. É possível até que novas formas de convívio se tornarão importantes. Isso faz com que possamos ser ativos na interação com outras pessoas - e que não resignamos.” (p. 107)
“Isso exige um esforço contínuo do indivíduo para restabelecer sempre de novo a coerência na autoimagem e na biografia. É importante estabelecer vínculos entre o agora e o passado e também o futuro para dar sentido à vida atual. Vivências precisam ser transformadas em experiências, precisam ser arraigadas no sentimento; o vínculo narrativo entre atualidade, passado e futuro deveria persistir e é provável que persista.” (p. 107)
“Pessoas pós-modernas, que são flexíveis e já viveram muitas reviravoltas, mesmo assim se preocupam com a continuidade: ouvimos e lemos sempre de novo sobre pessoas que descrevem como conseguiram salvar determinados objetos ao longo de várias mudanças Pessoas que gostam de livros costumam ter alguns livros que resistiram a todas as mudanças e limpezas e que são lidos sempre de novo. Pessoas com mais espaço possuem bibliotecas inteiras de livros considerados marcos da própria biografia de leitura. As lembranças precisam ser vividas também sensualmente para alimentar sentimentos de identidade. Trata-se de “objetos de transição”, que estabelecem vínculos com o passado e o futuro e assim possibilitam uma continuidade na biografia a despeito de todas as mudanças. (p. 108)
“A aceleração da vida, o sentimento de pressão e correria e a sensação de estarmos perdendo o essencial resultam numa percepção subjetiva de uma falta de tempo. Falta tempo para transformar vivências em experiências que possam ser compartilhadas com outras pessoas e que assim podem ser Integradas à própria biografia e vinculadas a outras pessoas. Minha autobiografia nunca é só a minha história, ela está conectada com as histórias de muitas pessoas que me são próximas. Hoje, procuramos nossas raízes - a necessidade de fazer parte, de ter raízes é a reação contrária à mudança acelerada que, em partes, é criada artificialmente.” (p. 115)
“Permita aos seus juízos seu próprio desenvolvimento quieto e em perturbado que, como todo progresso, precisa viajar da profundeza do interior e que não pode ser pressionado ou acelerado por qualquer coisa. Tudo é amadurecer e então parir. Permitir que cada impressão, cada semente de um sentimento se aperfeiçoe em si mesmo, na escuridão, no invisível, no inconsciente, naquilo que é inalcançável para a própria razão, para aguardar com humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: isso significa viver de forma artística: tanto no compreender quanto no criar. Aqui não existe medição de tempo, não há ano e dez anos são nada, ser artista significa: não computar nem contar; amadurecer como a árvore, que não pressiona seus sucos e que enfrenta as tempestades da primavera confiante e sem medo de que o verão virá. Ele virá. Mas ele só virá para os pacientes, que estão aqui como se a eternidade os esperasse, sem preocupação na calada da vastidão. Eu aprendo diariamente, aprendo sob dores, à quais sou grato: Paciência é tudo!” (p. 134)
“Pessoas que vivem em contato com a arte conseguem, em ressonância com os temas representados pelos artistas e com as respectivas emoções, perceber e refletir sobre esses temas e essas emoções também em sua própria vida. Trata-se da abundância de possibilidades humanas, do acesso às possibilidades imaginativas em geral.” (p. 140)

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