EU SOU O MONSTRO QUE VOS FALA – de Paul B. Preciado
Publicado em 2020, “Eu sou o
monstro que vos fala” tem como subtítulo “Relatório para uma academia de
psicanalistas”, por se tratar da conferência dada pelo filósofo e transexual
espanhol Paul B. Preciado durante as Jornadas Internacionais promovidas pela
Escola da Causa Freudiana em Paris, no ano anterior. O teor da comunicação
causou estranhamento no público a ponto de dificultar sua conclusão, causar
polêmica e até mesmo diferentes versões em vários países. Diante disso e a fim
de ampliar o debate, Preciado decidiu-se pela publicação do texto na íntegra.
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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
A monstruosidade citada no
título refere-se à condição transexual do autor, equivalente, segundo ele, ao macaco do conto “Um relatório para uma
academia”, de Franz Kafka. Diante da “academia” de psicanalistas, Preciado sente-se
em exibição numa “jaula” de homem trans: “marcado pelo discurso médico e
jurídico como transexual”, diagnosticado como doente mental pela psicanálise – “o
monstro que foi construído pelos seus discursos e práticas clínicas.” (p.13-14)
É a partir e em função da
transexualidade que o filósofo se coloca e questiona o público de 3.500
psicanalistas que pretende discutir “A mulher na psicanálise”. Entre os
aspectos discutidos, destaca-se a abordagem da binaridade de gênero feita por
Freud e Lacan – referências fundantes na psicanálise – e seguida ainda hoje pelos/as
profissionais. Segundo Preciado, tal redução é fruto de um contexto histórico
patriarcal e colonial e, por isso, precisa ser revista e adequada ao nosso
tempo.
“A transição de gênero e a
afirmação de um gênero não binário põem em crise não apenas as noções
normativas de masculinidade e feminilidade, mas também as categorias de
heterossexualidade e homossexualidade com as quais a psicanálise e a psicologia
normativa trabalham. Quando se rejeita o diagnóstico de disforia de gênero,
quando se afirma a possibilidade de vida social e sexual fora do binarismo da
diferença sexual, as identificações de
homossexualidade e heterossexualidade, de ativo e passivo sexual, de penetrador
e penetrado, tornam-se também obsoletas.” (p. 80)
A argumentação do autor baseia-se
em intensa pesquisa, realizada em áreas diversas, antes mesmo de sua transição
de gênero, mas principalmente em função de sua experiência pessoal. Ele começa
por descrever o contexto de seu nascimento e a designação normativa como
mulher, bem como o que seria esperado de sua performance social em oposição à
performance masculina.
“Não
vi nenhuma saída, ainda que fosse preciso encontrar uma: sentia que, por estar
encurralada entre dois muros, o da masculinidade e o da feminilidade, acabaria
inevitavelmente morrendo. (...) Mas resisti a essa domesticação, sobrevivi a
esse processo sistemático de aniquilação da minha potência vital que se
organizou em torno de mim toda a minha infância e adolescência” (p. 18)
Graças aos livros
“feministas, punks, antirracistas e lésbicos” cuja função foi “pôr fim à
convicção psicanalítica segundo a qual desafiar o binarismo equivalia a
penetrar no domínio da psicose”, a menina sobreviveu (p. 19). No entanto, ao
conjugar seus impulsos internos à observação do desempenho da mulher numa
sociedade heteropatriarcal – ora bela, ora vítima – Preciado, ao procurar “uma
saída”, decidiu “deixar de ser mulher” (idem). A partir daí teve início o
processo de transição ou “a liberdade fabricada” por meio de aplicação de
testosterona.
“A
liberdade é um túnel que se cava com as mãos. A liberdade é uma porta de saída.
A liberdade (...) é algo que se fabrica. (...) Nesse processo, o hormônio não é
de modo algum um fim em si: é um aliado na tarefa de se inventar outro". (p.
23 e 24)
Com as modificações internas
e externas propiciadas pela administração hormonal, Preciado passou a gozar
efetivamente uma liberdade maior que a vivida pelas mulheres “se por liberdade
se entender (...) ter a oportunidade, nem que por breves instantes, de
experimentar um senso radical de comunidade com tudo o que é vivo, com toda a
energia, toda a matéria (...).” Em outras palavras, ao identificar-se e
assumir-se como homem trans e, portanto, encontrar-se fora do regime da diferença
sexual e suas limitações, ao autor foi permitido “experimentar a vida fora
desses limites”. (p. 25)
Embora seus documentos e sua
aparência permitam a ele um cotidiano como homem branco europeu, uma
experiência de universalidade em contraposição à de alteridade, o filósofo considera
a necessidade política de assumir-se publicamente como transexual a fim de
instigar o debate da diferença sexual e a consequente mudança: “Prefiro a minha
nova condição de monstro à de homem ou de mulher, porque ela é como um passo
que avança no vazio, indicando a direção de um outro mundo”. (p. 36) Um dos
motivos dessa opção é a violência contumaz contra os corpos trans ao redor do
mundo – algo que poderia ser evitado se, por exemplo, os/as profissionais da
psicanálise promovessem uma revisão dos cânones freudianos e lacanianos.
Na segunda parte do livro, o
autor argumenta a respeito de três diferentes temas. O primeiro, o regime da
diferença sexual que, segundo ele, é histórico e mutante. O segundo, é a crise
da epistemologia binária e hierárquica, abordada a partir dos anos 1940 em
função dos movimentos políticos e das descobertas científicas. E o terceiro
tema é o devir de uma nova epistemologia do corpo humano vivo.
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Escrito de forma acessível, muito bem traduzido, o texto nos atrai pela narrativa ora poética, ora arrebatadora; pela ironia de
algumas afirmações, pela lucidez e pela veemência; pelos argumentos bem
fundamentados e, sem dúvida, por tratar-se de um relato de experiência: o
monstro que se dá a conhecer para que sua monstruosidade seja vista, num futuro
não muito longínquo, como uma das tantas práticas de liberdade.
Trata-se, por isso, um dos textos fundamentais para o projeto Manto da Transição, na medida em que oferece fundamentação teórica e inspiração poética para os textos e os bordados.
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Na próxima postagem, apresentarei alguns trechos selecionados do livro.
(Adélia Nicolete)
PRECIADO, Paul B. Eu sou o monstro que vos fala: relatório
para uma academia de psicanalistas. Trad. de Carla Rodrigues. Rio de Janeiro:
Zahar, 2022.

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