Papa Palmerino e a inspiração religiosa
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| Palmerino Sorgente |
Uma das peças bordadas em nosso projeto - um vestido - tem como tema a religiosidade, o que faz pensar em um artista praticamente desconhecido do grande público: Palmerino Sorgente, um artesão cujo requinte equipara-se aos mais dedicados investigadores da linguagem.
Nascido na Itália em 1920, o artista mudou-se para o Canadá em 1954, depois de servir na Segunda Guerra Mundial. Casado e pai de treze filhos, Palmerino ganhava a vida como dono de pizzaria até que, em 1970, um acidente de trabalho forçou-o a uma aposentadoria prematura. Para dar vazão à hiperatividade e tirar proveito de suas habilidades técnicas, converteu uma área de sua casa num bairro proletário em Montreal em oficina de reparos eletrônicos. Tudo caminhava normalmente até o dia em que começou a ouvir vozes. Em uma das ocorrências, Nossa Senhora ordenou-lhe que tomasse para si o anúncio da fé e, a partir desse dia, dedicou-se exclusivamente a tal propósito, vindo a ganhar a alcunha de Papa Palmerino, o Papa de Montreal.
A antiga oficina transformou-se em um genuíno espaço de arte e também em refúgio, já que foram transferidos para lá cama, geladeira, dispensa e objetos pessoais do artista, agora convertido em missionário. Para atrair os visitantes dispunha placas escritas à mão em letras grandes e vermelhas, ora na calçada ora na janela de sua loja. Em pouco tempo tornou-se uma figura urbana popular.
“Rosários, cruzes e medalhas; frascos de água benta, imagens de santos, santuários e pingentes se tornaram a matéria bruta para uma idiossincrática e intensa produção artística, em funcionamento 24 horas por dia. Com movimentos confiantes e equipado com uma lente de aumento e pinças, Sorgente fez o design de ricas vestimentas desde chapéus de cardeal, tiaras, e coroas, todas moldadas para sua cabeça, a roupas cerimoniais, anéis elaborados, amuletos, pingentes para chaveiros, e pequenos e ornamentados cartões de memória com orações.” *
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| Chapéus criados por Papa Palmerino e expostos no American Folk Art Museum |
“Rosários, cruzes e medalhas; frascos de água benta, imagens de santos, santuários e pingentes se tornaram a matéria bruta para uma idiossincrática e intensa produção artística, em funcionamento 24 horas por dia. Com movimentos confiantes e equipado com uma lente de aumento e pinças, Sorgente fez o design de ricas vestimentas desde chapéus de cardeal, tiaras, e coroas, todas moldadas para sua cabeça, a roupas cerimoniais, anéis elaborados, amuletos, pingentes para chaveiros, e pequenos e ornamentados cartões de memória com orações.” *
Todos os outros materiais utilizados eram novos, preferencialmente os que oferecessem algum tipo de brilho – lantejoulas, miçangas, pedras preciosas, glitter, objetos metálicos, tecidos e fitas – ou que fossem vermelho-sangue: “Cristo vestia vermelho quando foi condenado à morte”.** O efeito pretendido por Sorgente era fazer circular a mensagem de paz e amor de Deus, facilitar o acesso ao divino e encorajar a devoção.
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| Papa Palmerino em sua loja, em 1999 |
Mesmo depois do incêndio ocorrido em 2000 em que perdeu tudo, o artista continuou sua missão obstinadamente. Mudou-se para um pequeno apartamento próximo dali onde reproduziu o método anterior: oficina e quarto separados da loja por uma porta com cadeado e a inscrição “Área privada. Proibida a entrada sem permissão”. Ali viveu e trabalhou até sua morte em 2005, deixando um legado de objetos e muitos álbuns com figuras de santos mescladas a pensamentos e retratos seus - “A Nova Santa Bíblia” era o título mais comum.
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| Chapéu de autoria de Palmerino Sorgente |
Quando observo o chapéu acima, identifico nele um meticuloso trabalho com os materiais, intensificado se pensarmos nas dimensões dos objetos criados por Palmerino, pequenos em sua maioria. Repetição de padrões, predominância de certas tonalidades, alternância calculada de elementos, variedade de texturas e materiais e assim por diante. Embora o todo constitua-se num chapéu, cada setor pode ser apreciado de forma independente, pois carrega uma composição diferente dos demais.
Não houvesse a série de crucifixos, o acessório poderia ser tomado como profano e desfilado em ocasiões festivas.
Adélia Nicolete
Papa Palmerino pode ser visto no Youtube. O endereço é:
** Idem. p. 113
*** HANDKE, Peter. Gritos de socorro. In: HANDKE, Peter. Peter Handke: peças faladas. Org. e trad. de Samir Signeu. São Paulo: Perspectiva, 2015. p. 218




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