APRESENTAÇÃO DO PROJETO
Meu nome é Adélia Nicolete e este blog foi criado para compartilhamento do projeto MANTO DA TRANSIÇÃO: narrativas escritas e bordadas por uma mãe-trans, contemplado pelo edital LGBTQIA+ do ProAC SP em 2022.
Pretendo utilizar esse espaço para fazer resenhas de leituras, análise de filmes, bem como divulgar o trabalho e seus desdobramentos.
Começo por apresentar o projeto.
Em 2014, ao saber que meu filho B., aos 21 anos, até então designado como mulher, identificou-se como homem e decidiu-se pela transição de gênero, minha vida passou por transição equivalente: valores, posturas, ações, discurso, não sem as etapas “comuns” ao processo, quais sejam negação, revolta, culpa, confronto, resignação, luto e aceitação, entre outras. A partir da notícia, ao mesmo tempo em acompanhava o processo terapêutico, cirúrgico e burocrático, mantive um diário escrito. Em paralelo, escondi suas fotografias, me desfiz de suas roupas e de acessórios, mas algumas peças continuaram guardadas, não sabia bem por quê. Até o momento em que comecei a bordar uma jaqueta que era de nosso uso comum - decidi ressignificá-la artisticamente para que narrasse minha transição amorosa. Assim, escrita e manualidade uniram-se e ajudaram-me durante o processo até que, aos poucos, não sem tropeços, a transição foi assimilada e hoje me sinto pronta para uma partilha do sensível. Meu objetivo com este projeto é trazer visibilidade e promover reflexões acerca da transição de gênero através da ressignificação de vestimentas através do bordado – tomando como principal referência Arthur Bispo do Rosário e Leonilson, o desenvolvimento de narrativas maternas a partir das anotações em meus diários e de entrevistas com mães de filhos transicionados. Tais ações resultarão em um livro com os registros finais e de processo e em três exposições em cidades do ABC paulista das peças criadas, acompanhadas de leitura de trechos escritos e de rodas de conversa.
Apesar de minha formação em Artes, de ser pós-graduada e transitar desde muito jovem no ambiente artístico - teatro e artes-visuais, mais especificamente – a noticia da transição de gênero de um filho me abalou, nem tanto pelo aspecto moral, mas, principalmente, pelo social. Vivemos em um país homo e transfóbico, daí nosso principal receio como pais e mães. Outra preocupação é a saúde e o processo de transformação física, seguido pelas oportunidades de trabalho e assim por diante. Ou seja, como eu, milhares de outras mães passaram e passam pelo mesmo processo, muitas vezes sem referência de como poderiam se apropriar dessa vivência. Penso que a escrita e a expressão artística podem ser dois grandes aliados nesse sentido. Além do que, ouvir pais e mães em um contexto que não seja oficialmente terapêutico nem didático-pedagógico stritu sensu, promove a criação de novas abordagens do processo. A visita a uma exposição inusitada, acompanhada pela leitura de narrativas criadas a partir de diários de uma mãe-trans, além de trazerem visibilidade ao tema, promove um espaço de identificação ou mesmo estranhamento capaz de animar uma roda de conversa. Ainda que “cada caso seja um caso”, nessa oportunidade surgem trocas, desabafos, reflexões, etc. e suscita-se a possibilidade de estimular a escrita e a expressão artística como auxiliares no processo de apropriação racional e emocional da transição, de comunicação com filhes e com a sociedade. Para o público em geral, que não possui vínculo direto com pessoas transicionadas, a proposta visa ao contato sensível com o tema. Como artista-educadora, professo a expressão e a fruição artísticas não só como fim em si mesmas, mas também como vetores de autoconhecimento, de autodesenvolvimento e de aprimoramento da sociedade.
(Adélia Nicolete)

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