TRECHOS DO LIVRO "EU SOU O MONSTRO QUE VOS FALO, de Paul B. Preciado


Paul B. Preciado



PRECIADO, Paul B. Eu sou o monstro que vos fala: relatório para uma academia de psicanalistas. Trad. de Carla Rodrigues. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.



TRANSCRIÇÃO DE ALGUNS TRECHOS DO LIVRO



“Faz mais de seis anos que abandonei o estatuto jurídico e político de mulher. Um tempo talvez curto para quem está instalado no conforto ensurdecedor da identidade normativa, mas infinitamente longo quando tudo que foi apreendido na infância deve ser desaprendido, quando novas barreiras administrativas e políticas - invisíveis,  mas eficazes - se erguem e a vida cotidiana se torna uma corrida de obstáculos. Seis anos da vida adulta de uma pessoa trans assumem então a qualidade que têm para um bebê nos primeiros seis meses de vida, quando as cores aparecem diante de seus olhos e as formas ganham um volume que as mãos podem pela primeira vez agarrar,  quando a garganta, até então unicamente capaz de gritos guturais, e os lábios, até então feitos unicamente para mamar, articulam pela primeira vez uma palavra. Evoco o prazer da aprendizagem infantil porque um prazer semelhante surge da apropriação de uma nova voz e de um novo nome, da exploração do mundo para além da jaula da masculinidade e da feminilidade que acompanha o processo de transição. Esse tempo cronologicamente curto torna-se muito longo quando viajamos pelo mundo, quando estamos em evidência na mídia como trending topic “trans”; e quando, na verdade, estamos sozinhos, nos momentos em que precisamos nos apresentar ao psiquiatra, ao guarda da fronteira, ao médico ou ao juiz.” (p. 16)



“A liberdade de gênero e sexual não pode ser de forma alguma uma distribuição mais equitativa da violência, nem uma aceitação mais pop da opressão. A liberdade é um túnel que se cava com as mãos.  A liberdade é uma porta de saída. A liberdade - como esse novo nome pelo qual vocês agora me chamam, ou esse rosto vagamente hirsuto que veem diante de si - é é algo que se fabrica” (p. 23)



“Vivemos imersos na rede política da diferença sexual, e não me refiro apenas às questões administrativas, mas a toda uma série de poderes microscópicos que operam sobre nossos corpos e modelam nossos comportamentos. Quando compreendi que deixar o regime da diferença sexual significaria deixar a esfera do humano e entrar em um espaço subalterno,  de violência e de controle, fiz - como Galileu em sua época,  quando retraçou suas hipóteses heliocêntricas - tudo que era necessário para continuar a viver o melhor possível e exigir um lugar no regime de gênero binário." (p. 24)



“Designado ao gênero feminino em meu nascimento, e vivendo como uma mulher supostamente livre, comecei a atravessar um túnel, aceitei o jugo de me identificar como transexual e, por consequência, aceitei que minha condição, meu corpo, minha psique fossem considerados patológicos, segundo os conhecimentos que as senhoras e os seus senhores professam e defendem. Permitam-me dizer, no entanto, que encontrei nessa condição de aparente assujeitamento mais liberdade do que havia tido como mulher supostamente livre na sociedade tecnopatriarcal do início do século XXI, se por liberdade se entender sair, vislumbrar um horizonte, construir um projeto, ter a oportunidade, nem que por breves instantes, de experimentar um senso radical de comunidade com tudo que é vivo, com toda a energia, toda a matéria, para além das taxonomias  hierárquicas que a história humana inventou. Se o regime da diferença sexual pode ser concebido como um arcabouço semiotécnico e cognitivo que limita nossa percepção, nossa forma de sentir e de amar, a jornada da transsexualidade, por mais tortuosa e desigual que possa parecer, me permitiu experimentar a vida fora desses limites.” (p. 24)



“Até que um dia, depois de ter me injetado por três meses com uma dose de 250 miligramas de testosterona a cada 21 dias, abri a boca e uma voz rouca e áspera saiu da minha garganta. Fui o primeiro a ficar assustado, como se meus órgãos fonadores estivessem possuídos por uma entidade estranha. Não foi a masculinidade da voz que me aterrorizou, mas sua diferença em relação à voz graciosa pela qual todo mundo me reconhecia até então. Logo saí à rua e comecei a falar com essa voz que era ao mesmo tempo a minha e a de um outro. Minhas primeiras palavras me fizeram cair de repente na comunidade dos homens, que me acolheram como nunca antes haviam feito: “escutem, é um homem!”. Eu sentia essas palavras como um ferro que, com o fogo, me marcava enquanto homem, me recebendo finalmente na comunidade viril. No primeiro dia, o triunfo foi de curta duração, porque imediatamente depois minha voz se quebrou e falhou de novo comigo. Pouco a pouco, essa voz estranha se instalou em mim. É com essa voz, fabricada, mas biológica, estranha, mas inteiramente minha, que me dirijo aos caros senhoras e senhores.” (p. 28)



“Até que compreendi que essa sujeira e esse fedor correspondiam a uma forma de relação estritamente homossocial: os homens haviam criado um círculo fétido para caçar as mulheres. No interior desse círculo, em segredo, eles estavam livres para se olhar, livres para se tocar, livres para se revolver em seus próprios fluidos, fora de toda a representação heterossexual. Assim como as mulheres vão ao banheiro para refazer sua máscara de feminilidade, os homens vão ao banheiro para se esquecer por um instante da sua heterossexualidade e afirmar um prazer escondido de estar sozinhos, sem esse estranho alter ego que são as mulheres das quais devem estar acompanhados socialmente para exercer uma função reprodutiva e heteroconsensual.” (p. 29)



“Por trás das máscaras da feminilidade e da masculinidade dominantes, por trás da heteronormatividade, se escondem de fato múltiplas formas de resistência e de desvio.” (p. 30)



“Não sou de maneira alguma o que vocês imaginam. Não sei nem mesmo o que sou. Saber o que cada um é não é mais fácil do que determinar a posição exata de um elétron dentro de uma acelerador de partículas.” (p. 33)



“Para poder mudar, me impus duas leis, mais fortes do que todas as regras que a sociedade patriarcal e colonial quis me inculcar. A primeira delas, que considerei implícita durante todo o meu processo de transição, foi abolir o terror de ser anormal, semeado no meu coração ao longo da infância. É necessário detectar, isolar e extrair esse terror da memória. A segunda lei, um pouco mais difícil de seguir, foi recusar qualquer simplificação. Parar de supor, como fazem as senhoras e os senhores, que sei o que é um homem e uma mulher, ou um homossexual e um heterossexual. Libertar meu pensamento desses grilhões e experimentar, tentar perceber, sentir, nomear, para além da diferença sexual.” (p. 33)



“As lembranças da minha vida passada como mulher não apenas não foram apagadas como restam vivas em meu espírito, de modo que, ao contrário do que acreditam e preconizam a medicina e psiquiatria, não cessei completamente de ser Beatriz para me tornar Paul. Meu corpo vivo - não diria meu inconsciente ou minha consciência, mas meu corpo vivo, que engloba tudo em suas constantes mutações e múltiplas evoluções - é como uma cidade grega onde coexistem, com variados graus de energia, edifícios trans contemporâneos, uma arquitetura lésbica pós-moderna e belas casas art déco, mas também velhas casas de campo sob cujas fundações subsistem ruínas clássicas, animais ou vegetais, substratos minerais e químicos por vezes invisíveis. Os rastros que a vida passada deixou na minha memória se tornaram cada vez mais complexos e conectados, formando um amontoado de forças vivas, de modo que é impossível dizer que há apenas seis anos eu era simplesmente uma mulher e que dali em diante me tornei simplesmente um homem.” (p. 36)



“Quando aceita como um processo de tecnoxamanismo ativado pela presença da linguagem e dos hormônios, a experiência trans é um turbilhão de energia transformadora que recodifica todos os significantes políticos e culturais sem que seja possível fazer o recorte nítido (cardinal, segundo a caracterização médica) entre ontem e hoje, entre feminino e masculino. Sou a menina que atravessa um bairro da cidade de Cantábria e trepa nas cerejeiras roçando as pernas. Sou o menino que dorme no estábulo com as vacas. Sou a vaca que sobe a montanha e se esconde dos olhares humanos. Sou Frankenstein em busca de alguém que eu ame, passeando com uma flor na mão, enquanto todos à volta fogem. Sou o leitor cujo corpo se converte em livro. Sou a adolescente que abraça uma menina atrás da porta da igreja. Sou a menina que se disfarça de jesuíta e aprende de cor os parágrafos da Ética de Espinosa. Sou a lésbica de cabeça raspada que assiste aos seminários bdsm no Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender Comunity na rua 13 Oeste, em Manhattan. Sou a pessoa que se recusa a se identificar como mulher e que se injeta pequenas doses de testosterona a cada dia. Sou um Orlando cuja escritura se tornou química. Mas gostaria de evitar a narrativa heróica da minha transição. Não há nada de heróico nesse processo.” (p. 40)



“Não sou um lobisomem nem tenho a imortalidade de um vampiro. Meu único heroísmo era o desejo de viver, a força com a qual o desejo de mudança se manifestava e se manifesta ainda hoje em mim.” (p. 41)



“Eu diria mesmo que, ao contrário do que se costuma afirmar, o processo de metamorfose política que acompanha a transexualidade foi uma das coisas mais belas e alegres por que já passei na vida. Todos os aspectos terríveis e assustadores da transexualidade dizem respeito não ao processo de transição em si, mas à forma como as fronteiras de gênero punem e ameaçam matar aquele que tenta ultrapassá-las. Não é a transexualidade que é assustadora e perigosa, mas o regime da diferença sexual.”

(p. 42)



“A feminilidade ou a masculinidade dos que estão aqui presentes, assumida e defendida, não é menos fabricada do que a minha. Bastaria que revisem sua própria história de normalização e submissão aos códigos sociais e políticos de gênero dominantes para que sentissem as engrenagens da roda da fabricação girando dentro de si, e com elas o desejo de se libertar da repetição, se desidentificar. Viver para além da lei do patriarcado colonial, da diferença sexual, da violência sexual e de gênero, é um direito que todo corpo vivo deveria ter, mesmo o de um psicanalista.” (p. 44)



“Mas viver fora desse regime epistêmico e político quando um novo arcabouço cognitivo, um novo mapa do que significa viver, ainda não foi acordado coletivamente, é hoje terrivelmente difícil: nesse processo de transição, não cheguei aonde havia me proposto ii. Não é fácil inventar uma nova língua, inventar todos os termos de uma nova gramática. Trata-se de uma tarefa enorme, coletiva. Mas mesmo que uma só vida possa parecer insignificante, ninguém ousará dizer que o esforço não terá valido a pena.”

(p. 44)



“A partir da minha própria experiência, direi que a vida é igualmente bela, talvez ainda mais bela, e o amor igualmente intenso, talvez ainda mais intenso, quando a diferença sexual e as formas de amor heterossexual e homossexual que vocês consideram mais ou menos normais ou patológicas são reconhecidas por aquilo que são: grandes artefatos de ficção que construímos coletivamente, que um dia podem ter sido necessários à sobrevivência de determinado grupo de animais humanos, mas hoje não passam de uma pesada armadura que não produz nada além de morte e opressão. Artefatos inventados e legitimados politicamente, convenções históricas, instituições culturais que tomaram a forma de nossos próprios corpos a ponto de nos identificarmos a elas. A masculinidade e a feminilidade normativas, a heterossexualidade e a homossexualidade, tal como imaginadas no século XIX,  entraram em um processo que, se não pode ser chamado de colapso, deve pelo menos ser qualificado de desconstrução, por eufemismo ou por convicção filosófica.” (p. 45)



“A epistemologia da diferença sexual não é externa à psicanálise: é a condição interna e imanente de toda a teoria psicanalítica da sexualidade. As noções psicanalíticas de organização da libido, atividade-passividade, inveja do pênis, complexo de castração, mulher fálica, amor genital, histeria,  maso quismo, bissexualidade, androginia, fase fálica,  complexo de Édipo, posição edípica, estado pré-genital e genital, perversão, coito, prazer preliminar, cena originária, homossexualidade, heterosexualidade - a lista é quase infinita -  não tem significado fora de uma epistemologia da diferença sexual.” (p. 56)



“Não me digam que a diferença sexual não é crucial para explicar a estrutura do aparelho psíquico na psicanálise. Todo o edifício freudiano está pensando a partir da posição da masculinidade patriarcal, do corpo masculino heterossexual compreendido como um corpo com um pênis ereto, penetrante e ejaculador; é por isso que as “mulheres na psicanálise”,  esses estranhos animais (por vezes) equipados com úteros reprodutores e clitóris, são sempre e continuarão a ser um problema. E por isso que, em pleno 2019, as senhoras e os senhores ainda precisam de uma jornada especial para falar das “mulheres na psicanálise”. (p. 57)



“Acho que não estou revelando nenhum segredo quando afirmo que a psicanálise freudiana pôs no centro da narrativa clínica a normalização da feminilidade e da masculinidade heterossexuais, assim como o desejo e a autoridade do pai. É urgente fazer uma releitura feminista e queer do complexo de Édipo segundo Freud. Não posso fazer aqui uma hermenêutica de seus textos, mas posso dizer, muito rapidamente, que, ao atribuir a Édipo um suposto desejo “incestuoso”, Freud e a psicanálise contribuíram para a estabilidade da dominação masculina, tornando a vítima responsável pela violação e transformando em lei psíquica os rituais sociais de normalização de gênero, violência sexual e abusa de crianças e mulheres que funda a cultura patriarco-colonial.” (p. 59)



“A psicanálise não é uma crítica dessa epistemologia, mas a terapia necessária para que o sujeito patriarco-colonial continue a funcionar apesar dos enormes custos psíquicos e da indescritível violência desse regime. Diante de uma psicanálise despolitizada, precisamos de uma clínica radicalmente política, que comece por um processo de despatriarcalização e de descolonização do corpo e do aparelho psíquico.” (p. 60)


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