Trechos do livro "O CORPO DA ROUPA", de Letícia Lanz
Letícia Lanz
Trechos do livro "O corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a conformidade e a transgressão das normas de gênero", de Letícia Lanz. Curitiba: Transgente, 2015
“Assim, o que identifica e distingue a pessoa transgênera dentro da sociedade é a transgressão de gênero, a sua ousadia, insistência e determinação em confrontar o dispositivo binário de gênero, instituído e mantido pela sociedade como forma de classificação e hierarquização dos seres humanos, tendo como referência única e exclusiva o órgão genital que cada indivíduo traz entre as pernas ao nascer.” (p. 69)
“Esse fenômeno de desvio social de gênero é conhecido como transgeneridade e é capaz de causar sérios transtornos à saúde física e mental das pessoas gênero-divergentes, cuja superação inclui a adoção de canais de expressão que lhes permitam elaborar e manifestar pelo menos os aspectos mais conflituosos da sua transgeneridade. Em casos extremos, a eliminação do sofrimento psíquico das pessoas transgêneras poderá exigir a cirurgia do reparelhamento genital . A transgeneridade é um fenômeno extremamente amplo podendo apresentar uma imensa variedade de manifestações.” (p. 69)
“A roupa não é apenas o conjunto de vestes, acessórios e adornos que cobre o corpo das pessoas, mas, sobretudo, um conjunto de normas de conduta que nos são impostas em razão do nosso sexo genital.” (p. 179)
“A maioria das pessoas transgêneras descobre ainda na infância que não é qualquer corpo que está autorizado a entrar em qualquer roupa: é preciso ter o corpo especificamente requerido por uma roupa específica. E isso não tem nada a ver com questões estéticas, mas com normas de conduta de gênero.” (p.180)
“A partir daí, a luta da pessoa transgênera é com (contra) o seu próprio corpo, a fim de ajustá-lo à “roupa” sócio-político-cultural. Roupa que é muito mais do que vestuário e adereços. Roupa que é norma de funcionamento da sociedade, dispositivo de conduta, imagem e reconhecimento público. Roupa que encontra um corpo quase sempre incongruente com ela, no caso da maioria das pessoas transgêneras. Usar aquelas roupas definitivamente fazia com que eu me sentisse mulher. Era como se eu estivesse entrando para um mundo ao qual eu já sentia que pertencia, mas cujo acesso me era permanentemente negado. Essa fala da transexual Fernanda N. deixa claro o quanto a roupa, enquanto discurso de gênero, “materializa” o corpo transgênero.” (p. 180)
“A roupa funciona como o primeiro e mais importante filtro social para o reconhecimento instantâneo da identidade de gênero de uma pessoa.” (p. 182)
“Enquanto “norma corporalizada” no “corpo vestido”, a roupa “autoriza” que os corpos venham a ser lidos como masculino feminino, significado sexo, gênero e sexualidade. É exatamente essa propriedade da roupa que mais atrai a pessoa transgênera na sua tentativa de incorporação e representação da categoria de gênero em que deseja se expressar.” (p. 183)
“Uso de determinado tipo de roupa liga imediatamente o corpo vestido uma e uma única categoria de gênero considerado socialmente apropriado àquele tipo de roupa. Ou seja, o senso comum de que a roupa faz o homem ou a mulher reforça a ordem binária de homem e mulher. Assim, ao permitir a simulação de outra identidade de gênero através do uso da roupa, o travestismo revela a estrutura imitativa do gênero e seu caráter circunstancial." (p.183)
“Como narra o crossdresser Bel F., Roupa e maquiagem significam muita coisa porque o gênero tem várias perspectivas. Uma perspectiva é a do próprio indivíduo, como eu estou me percebendo. Outra é a perspectiva externa de como eu sou percebido. Elas estão interligadas e para que eu me perceba como mulher, eu tenho que ser percebida, porque o gênero é retirado a todo momento, então a todo momento eu tenho que dizer eu sou uma mulher eu tenho que ouvir as pessoas me dizendo: - “você é uma mulher”, para que essa condição, essa verdade, digamos assim, se perpetue. A roupa, é claro, tem uma importância muito grande nisso tudo. Ela traz uma inteligibilidade feminina, ela traz um conjunto de significados que vai ser lido por outras pessoas. Então, a partir do momento que eu, num corpo masculino, me aproprio do vestuário feminino e passo a transmitir, usar essa roupa para me comunicar com outras pessoas - porque, afinal, roupa é comunicação - a partir do momento que eu começo a fazer isso, eu estou comunicando uma outra identidade para as outras pessoas.” (p. 183)
“A superfície do corpo, na condição de fronteira comum entre a sociedade, o eu social e organismo biopsíquico, torna-se o palco simbólico no qual se desenrola o drama da socialização e o adorno corporal (em todas as suas formas culturais altamente heterogêneas, de pintura corporal a vestuário e de cocares de penas a cosméticos) se torna a linguagem através da qual esse drama é expresso.” (TURNER, 2012, p.486) (p. 186)
“A forma mais comum e imediata de se reconhecer a identidade de gênero de uma pessoa é através da sua expressão de gênero, isto é, do modo como ela se apresenta publicamente: a roupa que está vestindo, o modo de andar, falar, gesticular e se comportar em situações específicas. Gênero representa um código de conduta social que se utiliza de símbolos específicos para construir uma linguagem própria com a qual determina, fiscaliza e controla modos específicos da pessoa ser e estar no mundo em função da genitália que ela traz entre as pernas ao nascer.” (p. 187)
“Expressar uma identidade de gênero é, portanto, conduzir-se de acordo com o código de conduta social específico para a categoria de gênero na qual a pessoa deseja se expressar. Desse ponto de vista, o gênero pode ser visto como um avatar ao qual a pessoa empresta seu corpo para a plena manifestação desse mesmo avatar.” (p. 187)
“Travestilidade não é algo que a gente é, mas algo que a gente faz. A primeira e mais básica tentativa de expressar ao mundo quem a gente é.” (p. 187)
“Travestir-se significa literalmente vestir roupas do gênero oposto ao da pessoa que se traveste. Travestilidade, portanto, é uma prática que só tem sentido numa sociedade rigidamente estratificada em duas categorias opostas de pessoas e com vestuário criteriosamente especificado para cada uma delas.” (p. 188)
“Em virtude da grande flexibilidade do guarda-roupa feminino contemporâneo, que permite à mulher trajar-se em última instância com a roupa que ela bem entender, a pressão social para conformidade ao código de vestuário está sendo básica e exclusivamente exercida sobre o homem. Por essa razão, hoje em dia, considera-se a travestilidade como um fenômeno essencialmente do mundo masculino.” (p. 189)
“O problema é que as características humanas foram há muito tempo arbitrariamente rotuladas pela sociedade como sendo o “masculinas” ou “femininas”. Por absoluta falta de sorte dos homens, entre os atributos rotulados como femininos estão algumas das melhores características que um ser humano pode ter: sensibilidade, vulnerabilidade emocional, compaixão, senso estético, espontaneidade, felicidade e êxtase, apenas para citar algumas.” (p. 189)
A dinâmica do transgênero apresenta uma vertente inteiramente distinta. Dentro da visão junguiana, a pessoa transgênera MtF não deseja, literalmente, tornar-se mulher, mas apenas “tornar-se ela mesma”, ser uma pessoa “inteira” e plenamente integrada consigo mesma, capaz de levar uma vida mais relaxada e prazerosa, com os seus dois motores finalmente puxando numa mesma direção.” (p. 191)
“Assim como o corpo vestido é a representação ideal para as rígidas demarcações dos territórios identitários do homem e da mulher, o corpo travestido é a violação dessa mesma territorialidade, imposta e rigidamente controlada pelo dispositivo binário de gênero. Ao desafiar o código de vestuário, o corpo travestido, em vez de identificar e confirmar a categoria de gênero da pessoa que está usando determinada roupa, vem confundir, contradizer, embaralhar e desconstruir padrões, “agredindo” seriamente a correta identificação do sujeito dentro das matrizes de inteligibilidade de gênero que é a função básica do corpo vestido.” (p. 193)
“É esse confronto com as instituições que transforma o inofensivo ato de travestir em ação subversiva. É a subversão do código de vestuário, e a consequente ameaça que isso representa para a estabilidade da ordem social vigente que justifica, desencadeia e perpetua o processo de intolerância, discriminação, punição e estigmatização de que a travestilidade tem sido vítima milenar.” (p. 194)
“Ao marginalizar, demonizar e patologizar a travestilidade como prática maldita e indesejável, a sociedade visa proteger o cumprimento das normas de conduta fixadas pelo dispositivo binário de gênero.” (p. 194)
“Mesmo com todas as imensas dificuldades em terem seus direitos reconhecidos e respeitados, as travestis insistem na expressão pública da sua identidade de gênero, pouco lhes importando o bullying e o seu repertório de violências físicas e morais, a perda do apoio da família, da vaga na escola, da oportunidade de trabalho no mercado formal, enfim do lugar social atribuído às pessoas “generadas”, “decentes” e “normais”, que não transgridem e que, pelo contrário, se submetem pacificamente à ordem social-institucional ditada pela sociedade patriarcal heteronormativa-cisgênera.” (p. 195)
“Há pessoas que se travestem em todas as classes socioeconômicas, de todas as faixas etárias, de todos os ofícios e profissões e em todas as religiões e partidos políticos, mesmo nos que se apressam em negar que existem pessoas transgêneras nas suas fileiras.” (p. 195)
“Ao contrário da crença popular, existente até mesmo dentro do gueto transgênero, ser uma pessoa transexual não significa “estar presa em um corpo que não é o seu” e, em razão disso, passar o tempo todo pensando única e exclusivamente em mudar de corpo e, naturalmente, de sexo. Embora essa fosse também a crença comum entre “especialistas” do século passado, ser reconhecida como uma pessoa transexual não implica em a pessoa querer se submeter à cirurgia de reaparelhamento genital ou a qualquer outro tipo de tratamento clínico ou cirúrgico visando a readequação do seu corpo.” (p. 329)
“Por desejo e iniciativa própria, uma pessoa transexual realmente pode passar por cirurgias e tratamentos hormonais, mas essa não é a regra geral. Seja por razões pessoais, econômicas ou de qualquer outra natureza, muitas outras pessoas que se reconhecem como transexuais não colocam uma cirurgia ou tratamento hormonal nos seus planos, preferindo manter o mesmo corpo que têm.” (p. 329)
“É preciso ficar claro que cirurgias, hormonizações ou outras intervenções médicas não são capazes de legitimar a transexualidade de ninguém. Por se tratar de um processo de identificação altamente subjetivo, ou seja, inteiramente particular de cada pessoa, a única coisa que legitima a identidade de alguém é a sua própria autoidentificação numa dada categoria de gênero.” (p. 329)

Comentários
Postar um comentário